Peixe pede mais páscoas

Mercado de peixes no Brasil podia passar produção de 2 milhões para 20 milhões de toneladas, segundo a FAO. (Foto: Reprodução / Google Imagens).

 

Pecuária brasileira das águas ainda é atividade que pode melhorar os seus números

 

(*) por Daniel De Paula

 

Notícia original: http://ruralcentro.uol.com.br/analises/peixe-pede-mais-pascoas-4912#y=300

 

A Semana Santa acabou. A renovação espiritual que o mundo passa durante as celebrações dessa passagem bíblica tão fundamental para a nossa existência precisa permanecer conosco por mais uma temporada. Até a próxima Páscoa, entretanto, poderíamos conservar outros hábitos tão comuns nessa semana que terminou. Mais até do que o consumo excessivo de chocolate. Outro prato obrigatório para muitos religiosos podia ser mais incorporado no nosso cardápio, não fosse a falta de incentivo, de hábito e de acesso: o peixe.

 

Antes que alguém pense em competição com outra proteína de origem animal, devo salientar aqui que não vivo sem carne bovina e sou devoto de todos os outros tipo de carne – aves suínos e ovinos, principalmente. Mas o peixe ainda é algo que muita gente no Brasil não põe na panela com a mesma assiduidade.

 

Justo num País com litoral de 8,5 mil km de extensão, em que a Zona Econômica Exclusiva, onde se permite a exploração das águas, chega a 200 milhas a partir da costa, o que dá 3,5 milhões de km² de água marinha com infinita disponibilidade de espécies. Isso sem contar os 10 milhões de hectares de lâmina d’água em reservatórios de hidrelétricas e propriedades particulares ou os 8,2 bilhões de m³ em rios, açudes, lagos e represas – 13% da água doce do planeta estão no nosso território, em que pese as condições climáticas da última campanha ter secado muitos mananciais.

 

Tirando o consumo de que não se tem notícia em algumas regiões mais escondidas, onde o peixe é o principal – para não dizer o único – meio de subsistência, os números de um País imenso como o nosso ainda são menores do que, por exemplo, os do Peru.

 

O consumo indicado como ideal pela OMS é de 12kg/hab/ano. No mundo, 1 bilhão de pessoas têm no peixe a sua principal fonte de proteína, segundo estudo publicado por pesquisadores da Embrapa Pesca e Aquicultura, em janeiro de 2015. O consumo no Brasil foi a 14,50 kg/hab/ano, dados de 2013, impulsionado pelos 700% de crescimento do número de restaurantes orientais abertos no Brasil nos últimos dez anos, conforme números da Associação Brasileira da Culinária Japonesa. Mesmo assim, a maior parte desse pescado todo vem de fora. Isso mesmo, mas eu chego lá.

 

Desde 2003, o Brasil “ganhou” até um Ministério da Pesca e Aquicultura, que regula frota, registros profissionais e produção de pesca em água doce ou do mar, a aquicultura (produção de peixes em viveiros continentais ou marinhos), onde os carros-chefe são piscicultura e carcinicultura (criação de camarão).

 

O Brasil ainda produz muito pouco, comparando com outros países. Enquanto a produção de pesca extrativa e aquícola no mundo é de 150 milhões de toneladas, com destaque para China, Índia, Indonésia e Peru, o Brasil só tem 2 milhões de toneladas, das quais 40% cultivadas. Navegamos ali entre os 20 maiores produtores do mundo, mas estudo da FAO revela que poderíamos produzir até 20 milhões de toneladas, voando para um posto entre os três maiores do mundo.

 

Não produzimos e consumimos nosso próprio peixe exatamente porque o País não possibilita, por causa de burocracias, controles ambientais e logística pífia. Num segmento com PIB próprio de R$ 5 bilhões, 800 mil profissionais envolvidos, nossa produção fica sem mobilidade. A região maior produtora de peixes é o Nordeste, seguido de Sul e Norte. Entre os Estados, os que mais produzem peixe são SC, PA, BA, CE e RS.

 

Sem levar em conta números mais detalhados, o Brasil até exporta um pouquinho do que produz: 3 mil ton, o que rende US$12,8 mi no ano. Uma pluma na balança comercial do setor, já que importa 39,2 mil ton, pagando o equivalente a US$ 142 mi – preferencialmente da China (filé de Merluza do Alasca e Salmão do Pacífico e do Danúbio), Chile (Salmão do Pacífico), Vietnã (filé de peixes como Bagre), Noruega (Bacalhau), Argentina (Merluza). Só desses países, o Brasil compra US$ 120 milhões em peixes, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

 

O Brasil ainda importa muito mais do que produz para consumo interno, porque o País não oferece condições de produção tão sustentável quanto os discursos sempre enalteceram. Ainda que com investimentos crescentes no setor.

 

Durante o governo Lula, os recursos do Ministério da Pesca e Aquicultura aumentaram de R$ 11 milhões para R$ 803 milhões! Contudo, nesses oito anos não ocorreu nenhum aumento na produção nacional de pescado, segundo reportagem veiculada em março de 2011 pelo Estadão. No último mandato, a ministra Ideli Salvati sequer despachou do prédio pelo qual o governo paga R$ 575 mil por mês (mais de R$ 6 milhões/ano) só de aluguel do imóvel para quase mil funcionários.

 

Daí se entende porque continua impraticável o escoamento de uma produção maior com a falta de frigoríficos, o altíssimo custo de processamento cobrado pela pequena indústria existente para esse tipo de mercado e a condição de logística proibitiva no País.

 

É muito mais fácil, mesmo, trazer o Bacalhau de Portugal ou Noruega, no Atlântico Norte, a Polaca limpinha que vem da China ou do Sudeste asiático, ou o Salmão das águas geladas do Pacífico. Quando a gente entra no mercado, fica mais barato e prático comprar o Peixe-panga do Vietnã do que a Pescada Branca da Bahia, porque ela não chega na mesma condição, nem apresentação – e nem preço.

 

Isso reflete também no hábito do consumidor, que só se atina para esse tipo de alimento – tão saudável quanto outras carnes – em Semana Santa ou Semana do Peixe (setembro), em que o consumo cresce em média 30%.

 

Fica aquela gritaria interessante de Cação, Bagre, Castanha, Corvina, as várias espécies de Pescada, Pescadinha, os diversos tipos de Sardinha ou Taínha pra cá. Outro volume de ofertas em altos brados de Mandi, Curimatã, Dourado, Jaraqui, Mapara, Pacu, Pescada, Piramutaba, Surubim, Tilápia, Traía, Tucunaré pra lá. Sem contar muitos tipos de camarão e outros crustáceos.

 

O fato é que o governo poderia mexer mais que os pauzinhos dos restaurantes orientais para promover o consumo de peixe no Brasil, uma variabilidade que jamais tiraria o mercado da carne bovina e ainda complementaria a alimentação do povo.