Espécie de peixe ornamental da Amazônia é capaz de sobreviver em ambientes com temperaturas mais altas e baixas concentrações de oxigênio

Por Ana Luisa Hernandes

 

Pesquisadores e alunos do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), no INPA, acompanharam a defesa da dissertação de mestrado do aluno do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Água Doce e Pesca Interior (BADPI), Derek Felipe de Campos, ocorrida na sexta-feira (20). Com o título “Especialização fisiológica e bioquímica por adaptação térmica em duas espécies simpátricas da Amazônia Central (Paracheirodon axelrodi Schultz, 1956 e Paracheirodon simulans Géry, 1963) (Characidae)”, Derek apresentou a pesquisa que foi orientada pela Dra. Vera Maria Fonseca de Almeida e Val.

 

Segundo Campos,  os neons tetra consistem em um grupo de peixes ornamentais que habitam a Bacia Amazônica e são caracterizados por três espécies: Paracheirodon innesi (possui a parte abdominal mais branca); Paracheirodon axelrodi (possui uma linha lateral até o fim da nadadeira adiposa); e Paracheirodon simulans (apresenta uma linha lateral até o fim da coluna vertebral). “Para a realização deste trabalho, escolhemos o P. axelrodi (cardinal tetra) e o P. simulans (neon tetra) devido às duas espécies habitarem a porção mediana do Rio Negro e a Bacia do Orinoco. Porém, a primeira ocupa ambientes com baixa incidência solar e temperatura mais baixa, e a segunda é encontrada em ambientes com alta incidência solar e temperatura mais elevada”, explicou.

 

A partir disso, o objetivo geral do estudo foi verificar os mecanismos de adaptação à temperatura das duas espécies, P. axelrodi e P. simulans, as quais ocupam diferentes habitats térmicos. A pesquisa também teve como finalidade indicar a tolerância térmica das duas espécies de cardinais, verificar os efeitos da temperatura sobre o metabolismo delas, e analisar a capacidade de manter constante seu metabolismo a uma baixa concentração de oxigênio.

 

De acordo com o mestrando, as espécies foram adquiridas em uma loja de aquário especializada, trazidas ao LEEM, e acondicionadas separadamente em tanques de 150 litros com temperatura controlada de 26oC, pH 5, oxigênio em torno de 6 miligramas por litro e alimentação diária. Na primeira etapa do experimento, houve a medição da tolerância térmica em P. axelrodi e P. simulans.

 

“Na fase de aclimatação à temperatura, utilizamos 20, 25, 30 e 35oC, colocamos dez peixes em cada quadro, sendo seis aquários para cada espécie em cada temperatura, e eles passaram 14 dias em experimento. Após esse período, coletamos seis peixes das duas espécies – um de cada aquário e de cada temperatura – inserimos em câmaras respirométricas individuais, e medimos o oxigênio consumido pelo P. axelrodi e P. simulans“, descreveu Campos.

 

O autor da pesquisa revelou que a pressão crítica de oxigênio (Pcrit), em que os organismos deixam de manter o consumo de oxigênio constante e começam a diminuir tal consumo quando o oxigênio cai no ambiente, também foi medida.

 

Como resultados do trabalho, o aluno ressaltou que a espécie P. simulans apresentou aumento no consumo de oxigênio sob a temperatura de 35oC, enquanto a P. axelrodi mostrou redução no consumo de O2 na temperatura de 20oC. Segundo ele, esses dados se devem ao fato de que viver em ambientes com altas temperaturas implica no aumento do custo energético para esses animais. Além disso, foi possível observar que o P. simulans obteve pressão crítica de oxigênio menor que o P. axelrodi, o que indica que o primeiro possui maior capacidade de tomada de oxigênio e suprimento dos tecidos que o segundo e é, portanto, mais tolerante à hipóxia. Dessa forma, o P. simulans demonstrou maior potencial de geração de energia.

 

“Os maiores recursos energéticos observados para o P. simulans ou neon tetra, como é popularmente conhecido, conferem a esta espécie uma melhor adaptação para sobreviver em ambientes com temperaturas mais elevadas e baixas concentrações de oxigênio”, finalizou Derek.