Alto nível de gás carbônico na água reduz frequência cardíaca e compromete atividades de peixe comum da Amazônia

Por Ana Luisa Hernandes

Com o intuito de compreender como o gás carbônico afeta o funcionamento do coração do ‘bodó’, espécie amazônica de peixe cascudo (Hypostomus sp.), o Dr. Tyson James MacCormack, da Universidade de Monte Allison, no Canadá, desenvolveu no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), no INPA, em colaboração com os pesquisadores Adalberto e Vera Val, o trabalho intitulado “Pré-condicionamento do CO2 protege a função cardíaca no cascudo”. Pesquisadores e alunos assistiram o seminário ministrado pelo professor, na quinta-feira (12), e acompanharam os principais resultados obtidos.

 

De acordo com o doutor, o nível de gás carbônico presente na água do tanque do LEEM nunca havia sido medido desde o primeiro estudo realizado por ele no INPA. “O alto nível desse gás é muito comum na Amazônia e bastante estressante para muitas espécies de peixes. Quando se acumula uma grande quantidade de gás carbônico, o pH do sangue cai de 7,8 (básico) para 6.9 (ácido). Na maioria dos peixes, o pH do tecido diminui, o que faz com que dentro das células também fique ácido”, afirmou.

 

Porém, esta situação não se aplica ao cascudo, que consegue manter o mesmo pH no sangue e tecidos. Segundo MacCormack, o bodó, por exemplo, utiliza essa estratégia para se adaptar ao seu ambiente natural.

 

Etapas do experimento

 

Na primeira fase do estudo, Tyson e outros dois pesquisadores compararam os bodós vivendo em tanques com alto nível de gás carbônico e aqueles sob baixo CO2. A partir disso, mensuraram a atividade elétrica no coração e, em seguida, o órgão foi retirado para testar o funcionamento do músculo. Os bodós foram então inseridos no tanque com baixo gás carbônico por cinco dias. Ao serem expostos ao alto CO2, sua taxa respiratória aumentou. “Quando se está cercado por um alto nível de gás carbônico, é difícil se livrar dele, então os peixes respiram bem mais rápido. Assim, precisávamos saber se o bodó estava respondendo ao estresse, mesmo estressado, e ele estava”, explicou o professor.

 

Já na segunda parte do experimento, os pesquisadores optaram por analisar o coração de forma isolada. Eles colocaram os peixes em um local com 100% de oxigênio e mediram o quanto o coração estava saudável. Em seguida, alteraram o cenário para 10% de gás carbônico e calcularam as contrações do órgão. “Verificamos que os bodós do tanque com gás carbônico muito baixo eram fortes e os expostos ao gás carbônico tornaram-se fracos. Os peixes que viveram no tanque externo, sob alto CO2, se mantiveram fortes”, ressaltou MacCormack.

 

Como resultados, o pesquisador canadense destacou que a exposição do bodó a um alto nível de gás carbônico na água pode diminuir a frequência cardíaca do animal e, consequentemente, comprometer as atividades desempenhadas por ele. “O coração desses animais funciona muito bem em condições normais, porém, se eles precisarem fugir de um predador ou migrar para outra direção do rio, a máxima performance do órgão poderá não ser tão eficiente”, exemplificou. Entretanto, ao ser exposto a locais com baixo nível de gás carbônico, o bodó pode se exercitar com mais facilidade, mas não estará apto a sobreviver sob condições normais.