Águas contaminadas do Igarapé do Quarenta, em Manaus, geram estresse metabólico no tambaqui

Por Ana Luisa Hernandes

 

Com o objetivo de determinar a taxa metabólica (consumo de oxigênio por grama de peixe) e a capacidade celular de respiração do tambaqui (Colossoma macropomum) exposto às águas do Igarapé do Quarenta, localizado em Manaus-AM, a aluna do Programa de Pós-Graduação em Biologia Urbana da Universidade Nilton Lins, Roberta Prestes Jacaúna, desenvolveu sua dissertação de mestrado.

 

Com o título “Alterações no metabolismo aeróbico em juvenis de tambaqui (Colossoma macropomum) expostos às águas do Igarapé do Quarenta, Manaus, AM”, o trabalho foi orientado pelo pesquisador do INPA Adalberto Val, e apresentado na terça-feira, 16 de dezembro, no bloco Unicenter, Universidade Nilton Lins, sala 255.

 

De acordo com a autora, a cidade de Manaus compreende, ao todo, quatro grandes bacias: São Raimundo, Educandos, Tarumã e Puraquequara. Esses ecossistemas apresentaram, no passado, características naturais com a qualidade de suas águas inalteradas, porém, atualmente, estes se encontram alterados, funcionando como principal via de cargas poluidoras. “Os corpos d’água têm recebido uma quantidade crescente de poluentes vindos de efluentes urbanos como residências, comércios e indústrias, o que pode afetar diretamente a saúde de algumas espécies como os peixes”, explicou a mestranda.

 

Ainda segundo Roberta Prestes, dentre os poluentes despejados no Igarapé do Quarenta estão metais (ex: cobre e cádmio) e compostos formados pela queima de combustíveis (ex: naftaleno, pireno e benzo[a]pireno). Em contato com os organismos que habitam esses ecossistemas, os compostos podem causar diversos danos. “Os metais podem ser provenientes tanto de atividades humanas, como da fabricação de ferro, quanto da natureza, por meio de erosões. Já o naftaleno e o benzo[a]pireno são originados da queima de combustível e capazes de estimular o aparecimento de câncer”, destacou.

 

Para realizar o experimento, a aluna utilizou juvenis de tambaqui com aproximadamente 3cm e 5g adquiridos em piscicultura local. Os animais foram transportados ao Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), no INPA, mantidos em um tanque com capacidade para 2 mil litros d’água, e alimentados com ração contendo proteína na quantidade adequada à espécie. Já a coleta de água para análise foi feita por meio de dois pontos: ponto 1 – maior grau de poluição por estar mais próximo a indústrias; e ponto 2 – escolhido para verificar uma possível dispersão de metais ou outros compostos. As amostras de água foram transportadas ao laboratório.

 

“Durante a coleta da água, o oxigênio presente no Igarapé do Quarenta foi muito reduzido, sendo que o pH foi de 8,22, ou seja, alcalino ou básico, diferente das águas naturais da Amazônia que apresentam tendência ácida. Após o transporte para o laboratório, a água foi distribuída em aquários e os tratamentos divididos em controle, ponto 1 e ponto 2, sendo o controle a água de poço do INPA, e os pontos 1 e 2 as águas provenientes de dois pontos de coleta ao longo do igarapé. Em cada um dos aquários foram colocados quatro peixes aleatoriamente. A exposição foi de 96h. Para os experimentos, a água foi aerada para retornar os níveis de oxigênio ao normal, e houve também a mensuração de temperatura, condutividade elétrica, íons e amônia”, disse a mestranda.

 

Ao final do experimento observou-se valores maiores para pH e condutividade elétrica no ponto 1 e no ponto 2, quando comparados à água do controle. Em relação às análises de íons na água, os valores maiores se deram para elementos como o cálcio, potássio, sódio, magnésio e cloreto nos dois pontos em comparação à água do controle. Já a concentração de amônia nos pontos 1 e 2 foi mais elevada que no controle.

 

Para os metais cobre e cádmio, houve aumento nas concentrações nos pontos 1 e 2 em relação ao grupo controle, e, de acordo com Roberta Prestes, isso aconteceu devido à proximidade do Igarapé do Quarenta ao Distrito Industrial de Manaus. O consumo de oxigênio deu-se de maneira elevada nos animais expostos às águas do ponto 1 e ponto 2 em comparação aos animais expostos à água de poço do INPA.

 

“Ocorreu uma diminuição na relação das taxas entre o sistema de transporte de elétrons e a respiração nos pontos 1 e 2. Isso indica que os animais estavam sob estresse metabólico (alteração na demanda energética), uma vez que a presença de metais e compostos formados pela queima de combustíveis na água pode gerar uma demanda metabólica maior, ou seja, o aparecimento de espécies reativas de oxigênio, o que ativaria o sistema antioxidante dos peixes”, enfatizou a aluna.

 

A mestranda concluiu que o tambaqui (Colossoma macropomum) apresentou estresse metabólico quando exposto às águas contaminadas do Igarapé do Quarenta e que este foi evidenciado pela diminuição da relação entre o sistema de transporte de elétrons e a taxa de respiração.