Piscicultores de propriedades próximas a Manaus não seguem padrão para realizar cruzamentos entre tambaquis de cativeiro

Por Ana Luisa Hernandes

 

Com o objetivo de determinar as características físicas e genéticas de tambaquis criados em estações de piscicultura do Amazonas para desenvolver um programa de melhoramento genético, a aluna do Programa de Pós-Graduação em Aquicultura da Universidade Nilton Lins, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI), Elen Carla Pereira dos Santos, elaborou sua dissertação de mestrado.

 

Intitulado “Caracterização genotípica e fenotípica de matrizes de tambaqui (Colossoma macropomum, Cuvier 1818) em piscicultura do estado do Amazonas”, o trabalho foi apresentado na segunda-feira (27), no bloco Unicenter, localizado na Universidade Nilton Lins, sala 153, e contou com a presença de pesquisadores, alunos e da orientadora Dra. Vera Maria Fonseca de Almeida e Val.

 

Segundo a aluna, a escolha do tambaqui (Colossoma macropomum) como espécie-chave para o desenvolvimento do estudo deveu-se à sua resistência a doenças, boa aceitação à ração e viabilidade econômica. Além disso, essa é a primeira espécie a qual se conhece o suficiente para planejar estoques naturais e em cativeiro. “Dados da Secretaria de Estado de Produção Rural (SEPROR) indicam que de cada 5 tambaquis consumidos em Manaus, 4 são provenientes de cultivo, o que representa a aceitação do peixe de cativeiro em relação ao da natureza, o que não acontecia há alguns anos atrás”, afirmou.

 

Assim, uma das ferramentas que permite o planejamento de estoques naturais e em cultivo é a análise dos dados genéticos do animal. Para isso, são necessários os chamados marcadores moleculares, ou seja, sequências de DNA que avaliam características e detectam diferenças entre um ou mais organismos. “Basicamente, esses marcadores auxiliam os piscicultores quanto ao melhoramento da qualidade dos filhotes de peixes distribuídos ou comercializados”, explicou Elen.

 

Na primeira fase do trabalho, a mestranda visitou seis propriedades em locais próximos à capital amazonense – Rio Preto da Eva, Itacoatiara, Balbina, Centro de Treinamento e Tecnologia de Pesca e Aquicultura (CTTPA) do Amazonas-Balbina, Presidente Figueiredo e Manacapuru – onde coletou amostras da nadadeira caudal de tambaquis machos e fêmeas. A extração, centrifugação e separação do DNA dos animais para determinar sua qualidade foram feitas no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), no INPA.

 

“A partir das análises, verificamos que a população de Presidente Figueiredo foi a única a não realizar cruzamentos entre os indivíduos do mesmo grupo. Já a população de Itacoatiara mostrou o contrário. Em Rio Preto da Eva, a população de tambaquis se manteve distante das demais, o que pode estar relacionado à origem desses animais, enquanto que as outras três populações eram oriundas de Balbina, o que justificou a proximidade entre elas”, ressaltou Elen Santos.

 

Na segunda etapa do estudo, foram medidos e analisados a massa corporal, o tamanho da cabeça, a altura do corpo, o comprimento dorsal e ventral dos peixes, e realizadas entrevistas com piscicultores. Como resultados, as fêmeas de tambaqui de Presidente Figueiredo destacaram-se quanto à massa corporal se comparadas às de outras populações; Itacoatiara obteve êxito em relação ao tamanho da cabeça de machos e fêmeas da espécie; o comprimento dorsal foi maior nas fêmeas de Presidente Figueiredo; o maior comprimento ventral foi detectado nas fêmeas de Presidente Figueiredo e Manacapuru; e a altura do corpo dos machos de Itacoatiara, Balbina e do CTTPA se diferenciou em relação às fêmeas.

 

“Após interpretar os questionários feitos com piscicultores, percebemos que Balbina é citada em 20% das respostas como sendo a possível origem dos animais estudados, além de Rio Preto da Eva e do INPA. Quanto aos cruzamentos, 40% dos piscicultores afirmaram não haver critérios estabelecidos para realizá-los, outros 40% disseram que a fêmea deve ser menor que o macho, e 20% utilizaram a coloração dos animais como fator predominante para a reprodução”, contou a mestranda.

 

Ao final da pesquisa, Elen Santos constatou que os tambaquis de Presidente Figueiredo apresentam as melhores características físicas; a população de Itacoatiara realiza cruzamentos entre indivíduos da mesma família e possui maior tamanho de cabeça (fator selecionado não intencionalmente pelo produtor e indesejável para a comercialização); os piscicultores entrevistados não seguem um padrão para a reprodução dos peixes; e o tambaqui é a principal espécie cultivada nas pisciculturas, porém, não é a única fonte de renda delas.

 

No futuro, será necessário orientar os piscicultores a realizar cruzamentos direcionados à melhoria das características comerciais importantes para que a seleção de características indesejáveis não ocorra nos cultivos.