Exposição de espécies de anfíbios a igarapés contaminados em Manaus pode torná-las mais vulneráveis a doenças

Por Ana Luisa Hernandes

 

De que maneira duas espécies de anfíbios que habitam as margens de igarapés contaminados em Manaus-AM lidam com esta situação? O questionamento motivou a elaboração da tese de doutorado do aluno do Programa de Pós-Graduação em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (GCBev/INPA/MCTI), Jorge Felipe Oliveira Franco de Sá.

 

O trabalho, intitulado “Efeito da poluição do Igarapé do Quarenta sobre a expressão gênica e o desenvolvimento larvário dos anuros Rhinella granulosa e Scinax ruber“, sob orientação do pesquisador do INPA Adalberto Val, foi apresentado na terça-feira, 9 de setembro, no auditório do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM).

 

Segundo o doutorando, o objetivo do estudo foi avaliar a influência da poluição do Igarapé do Quarenta, localizado no bairro Japiim, Zona Sul de Manaus, na expressão gênica e no desenvolvimento larval das espécies de anfíbios escolhidas. “O Igarapé do Quarenta é considerado um dos mais contaminados da cidade porque recebe esgoto doméstico e industrial dos bairros onde percorre. Porém, em suas margens ainda é possível encontrar algumas espécies de anuros como a Scinax ruber, conhecida como gia, e a Rhinella granulosa, denominada cururu”, explicou.

 

Ainda de acordo com ele, a capital amazonense é cortada por um grande número de igarapés com predominância de águas pretas que possuem uma composição físico-química diferente da encontrada em águas de outras regiões brasileiras. Dentre as principais características das águas pretas estão o baixo pH, as baixas concentrações de nutrientes e condutividade elétrica, e as altas concentrações de ácidos húmicos (compostos orgânicos naturalmente encontrados em solos, sedimentos e na água, resultantes da transformação de resíduos vegetais).

 

Na primeira etapa do trabalho, Jorge Franco-Sá comparou a sensibilidade das duas espécies de anuros ao cobre e verificou a toxicidade do metal em igarapés urbanos utilizando girinos e ovos. Para o experimento, que durou quatro dias, foram necessárias três desovas de Scinax e três de Rhinella coletadas próximas ao Igarapé do Barro Branco, na Reserva Florestal Adolpho Ducke, considerada uma área livre de poluentes. O cloreto de cobre foi diluído na água do Igarapé do Barro Branco e diferentes análises foram realizadas. “Na fase inicial, observamos que os ovos são mais resistentes ao cobre que os girinos, e que os girinos da espécie Scinax são mais tolerantes a esse metal que os da Rhinella“, afirmou o doutorando.

 

Já na segunda parte do estudo, o aluno mediu os efeitos crônicos da contaminação por cobre em girinos de Scinax ruber nas áreas de igarapés de água preta. Para isso, foram utilizadas três desovas diferentes da espécie coletadas na Reserva Florestal Adolpho Ducke (total de 60 girinos) e, como contaminante, 30mg/L de cobre. “Nos primeiros dias de experimento, analisamos alguns parâmetros comportamentais dos girinos como o modo de natação e a resposta à alimentação. Então, constatamos que o cobre não provocou nenhuma alteração significativa no comportamento e no desenvolvimento larvário da espécie Scinax”, disse.

 

Na última etapa da pesquisa, o doutorando optou por identificar quais genes seriam expressos no fígado de machos adultos de Scinax ruber expostos a áreas contaminadas do Igarapé do Quarenta. Ao todo, cinco amostras de água foram colhidas para caracterizar o ambiente: uma no igarapé e quatro nas poças que são usadas pelos anfíbios para depositar ovos. Em seguida, 12 animais foram avaliados, seis do Igarapé do Quarenta (contaminados) e seis da Reserva Ducke (sem contaminação). “Observamos um aumento da expressão de três genes no fígado dos animais do igarapé em relação aos da reserva. Assim, a expressão dos genes no fígado dos anfíbios do igarapé aumentou 197,7 vezes em comparação aos da reserva”, destacou.

 

Franco-Sá também relatou que os resultados obtidos na terceira fase do estudo demonstraram que o aumento da expressão gênica no fígado de anuros localizados às margens do Igarapé do Quarenta tornou esses animais mais suscetíveis ao desenvolvimento de tumores malignos em relação aos anfíbios da Reserva Florestal Adolpho Ducke.

 

O aluno concluiu que a exposição das espécies Rhinella granulosa e Scinax ruber aos contaminantes presentes nos igarapés de Manaus pode reduzir as taxas de sobrevivência dos girinos e torná-los mais suscetíveis a doenças. O estudo foi financiado pelo INCT-ADAPTA (agências CNPq e FAPEAM).