Pesquisadora conclui que características físico-químicas da água do Rio Negro podem aumentar toxicidade do petróleo para os peixes

Por Ana Luisa Hernandes

 

Determinar os efeitos da exposição a diferentes concentrações do petróleo e seus derivados nas respostas de biomarcadores em diferentes espécies de peixes da região amazônica, mais especificamente do Rio Negro-AM, avaliando o papel das propriedades físicas e químicas da água sobre a toxicidade desses compostos aos peixes. Este é o objetivo da tese de doutorado desenvolvida pela aluna do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Água Doce e Pesca Interior (BADPI/Inpa), Helen Sadauskas-Henrique.

 

Intitulada “Efeitos subletais da poluição por petróleo e derivados sobre peixes do Rio Negro (Amazonas, Brasil)”, a tese foi defendida no dia 30 de julho, no auditório do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), e contou com a presença de pesquisadores do LEEM e da comunidade científica. O trabalho foi orientado pela Dra. Vera Maria Fonseca de Almeida-Val.

 

Segundo Helen Sadauskas-Henrique, a principal fonte de contaminação da água do Rio Negro consiste em pequenos vazamentos oriundos da constante presença de pequenas e grandes embarcações nos portos localizados na orla de Manaus. Além disso, a Amazônia possui atividade de extração e refino do petróleo, onde o óleo cru é extraído na Província Petrolífera de Urucu, localizada no município de Coari, interior do Amazonas, sendo transportado por meio de balsas até a refinaria de Manaus, localizada às margens do Rio Negro. “Sem dúvida, essas atividades influenciam na contaminação da água pelos compostos tóxicos do petróleo e derivados”, disse.

 

O petróleo constitui-se em uma mistura complexa de hidrocarbonetos, sendo os hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs) a porção mais tóxica devido às suas propriedades mutagênicas e carcinogênicas. Dessa forma, quando presentes nos ambientes aquáticos, os HPAs podem causar profundos impactos à fisiologia dos peixes, sendo que, em ambientes aquáticos com altas concentrações de carbono orgânico dissolvido (COD) e baixas concentrações de sais, como as águas pretas da Amazônia, foi observado um aumento na toxicidade desses HPAs para os peixes residentes, medida pelo uso dos biomarcadores bioquímicos e fisiológicos. “Uma vez presente na água, os peixes vão absorver os HPAs através das brânquias, alimentação e pele. Depois disso, essas substâncias poderão ser biotransformadas em compostos menos tóxicos para eles. No entanto, observamos que os animais expostos ao petróleo em água natural do Rio Negro apresentaram falhas no sistema de desintoxicação que levou a uma maior toxicidade dos HPAs nesse ambiente”, explicou a doutoranda.

 

A pesquisa

 

A tese foi dividida em três capítulos. O primeiro avaliou as respostas dos biomarcadores de exposição e efeito em função de diferentes concentrações do benzo[a]pireno no tambaqui. Os biomarcadores mais relevantes selecionados nesse estudo foram utilizados no segundo capítulo, no qual foi avaliada a influência da qualidade da água do Rio Negro (altas concentrações do COD e baixas concentrações de sais) na toxicidade do óleo cru de Urucu. Além disso, a toxicidade desse mesmo óleo associado a um dispersante químico, usado em casos de derramamento do petróleo e derivados, também foi estudada. Já o terceiro capítulo, tratou do monitoramento da qualidade da água de uma área portuária no Rio Negro (Porto do São Raimundo) impactada pelo derramamento de um derivado do petróleo, por meio da análise dos biomarcadores em duas espécies residentes de ciclídeos, Acarichthys heckelii e Satanoperca jurupari. Assim, foi possível verificar o uso dos biomarcadores analisados em laboratório, sendo que estes foram considerados ferramentas efetivas para demonstrar os efeitos tóxicos dos HPAs para as espécies residentes no Rio Negro.

 

Como conclusões gerais da tese, na primeira parte do trabalho, Sadauskas-Henrique constatou que as enzimas de biotransformação, os danos no DNA e nas membranas celulares, e a presença dos metabólitos dos HPAs na bile dos peixes foram eficientes em indicar a exposição do tambaqui a estes, e que o uso conjunto desses biomarcadores possui grande potencial para indicar a contaminação por petróleo e derivados nos peixes da Amazônia. No segundo capítulo, a aluna observou maior toxicidade do petróleo sozinho e em associação com o dispersante químico nos tambaquis na água do Rio Negro, demonstrando que o uso desses dispersantes químicos não foi uma boa estratégia quanto ao derramamento acidental do petróleo e derivados nesses ambientes. Por fim, no último capítulo do trabalho, a doutoranda destacou que apesar da diminuição temporal na concentração dos HPAs na água do Porto do São Raimundo, não houve redução na toxicidade desses compostos para ambas as espécies estudadas. “Verificamos a importância da análise não somente da água, mas dos peixes em ambientes contaminados por essas substâncias, uma vez que esses animais podem entrar em contato com os tóxicos não somente através da água, mas também do sedimento e da alimentação. Isso traz preocupações adicionais quanto à contaminação constante do ambiente do Rio Negro”, completou.