Expansão da pesquisa na Amazônia precisa ter como foco a inclusão social, destaca pesquisador

Por Ana Luisa Hernandes

 

Segundo o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Adalberto Val, que participa nesta semana da 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a expansão da pesquisa na Amazônia deve ter como base o desenvolvimento econômico e social da região, objetivando a inclusão social. Para ele, a ciência é uma atividade social.

 

Coordenador-geral do INCT Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (INCT-ADAPTA, CNPq/FAPEAM), Adalberto Val irá ministrar uma palestra no próximo sábado (26) sobre o tema contaminação ambiental por metais pesados, e no domingo (27) participará de uma conferência com a temática mudanças ambientais e a sobrevivência da biota aquática amazônica.

 

Val também coordenará duas mesas-redondas, uma relacionada ao manejo da floresta, com discussões sobre o código florestal, e outra ligada à atividade da SDSN (Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável), uma iniciativa da ONU (Organização das Nações Unidas).

 

A Reunião da SBPC iniciou nesta terça-feira (22) e segue até domingo (27), na Universidade Federal do Acre (UFAC). O Inpa, que possui um Núcleo de Apoio à Pesquisa no Acre (NAPAC), participará do evento com a contribuição de 15 pesquisadores em diversas atividades (conferências, mesas-redondas, palestras, minicursos). Além de Adalberto Val, estão, por exemplo, o coordenador de Extensão do Inpa, Carlos Bueno; e o pesquisador Philip Fearnside. Acompanhe a entrevista.

 

Quais os principais desafios a serem vencidos na região amazônica tendo em vista o avanço da ciência e da tecnologia?

 

As pressões que temos vivido na Amazônia nos últimos tempos são de todas as ordens, e várias delas estão relacionadas às atividades do homem nos tempos recentes. Estamos falando sobre mudanças climáticas – e a Amazônia não está isolada do efeito delas – poluição ambiental, segurança alimentar – que hoje tem na pesca e aquicultura vertentes importantes – desenvolvimento sustentável, inclusão social e geração de renda, afinal, temos na Amazônia cerca de 25 milhões de pessoas e, portanto, não podemos expandir a pesquisa sem ter o olhar voltado para o desenvolvimento econômico e social da região com vistas à inclusão social. Não podemos mais pensar na ciência pela ciência. A ciência neutra não existe mais. Ela é uma atividade social, com fins sociais, e precisa alcançar a vertente dos fins sociais porque é a sociedade que suporta o desenvolvimento das atividades científicas.

 

O tema da Reunião da SBPC esse ano é “Ciência e tecnologia em uma Amazônia sem fronteiras”. Para o senhor, qual o significado disso?

 

Sendo a Amazônia uma região tão singular quanto é, não podemos vê-la como fronteira. Precisamos nos dedicar e compartilhar esse ambiente, não somente do ponto de vista físico, biológico e químico, mas também, e, fundamentalmente, dos processos que levam ao desenvolvimento sustentável dessa região, porque não importa onde a árvore é derrubada, já que o efeito final é no bioma como um todo. Portanto, acho que compartilhar o conhecimento é importante no contexto do bioma amazônico, através da criação de interações diversas na educação, ciência, tecnologia, cultura, comunicação, transporte, saúde, enfim, precisamos criar formas de interagir sem os limites impostos pelas diferentes fronteiras. Vale lembrar que uma parte delas não é só política, mas existe dentro dos próprios territórios. Se considerarmos a Amazônia brasileira, verificaremos a existência de fronteiras dentro dela que precisam ser derrubadas para que possamos ter um país de fato. Enquanto bioma, temos que ver a Amazônia sem fronteiras. Peixes, plantas, aves e insetos não sabem ver onde termina o limite de um país e começa outro, eles se deslocam para todos os lados. Da mesma forma, a cultura se espalha e assume novos matizes.

 

Ainda no contexto de Amazônia, como o senhor avalia a escolha de Rio Branco, capital do Acre, para sediar o evento?

 

O Acre tem uma história muito bonita. Acredito que a realização da SBPC em Rio Branco é extremamente emblemática. Essa é a segunda vez em toda a história da ciência brasileira que a Reunião da SBPC é feita nesta parte da Amazônia. A primeira foi em Manaus, e agora em Rio Branco. Isso carrega uma mensagem importante, que é a integração do país do ponto de vista da ciência e da tecnologia. Muitos de nós que estamos indo participar desse evento vamos levar o que há de mais moderno no que estamos fazendo para compartilhar com outros colegas não só de Rio Branco, mas também de outros lugares do Brasil e do mundo.