Aumento de temperatura deve alterar quadro econômico da piscicultura no Brasil, diz pesquisadora

Por Ana Luisa Hernandes

 

Para a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Vera Val, que participa nesta semana da 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a aquicultura é uma alternativa econômica importante para a Amazônia e as mudanças climáticas poderão afetar a criação de peixes, mais nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul que no Norte.

 

Coordenadora de Programas Aplicados do INCT Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (INCT-ADAPTA, CNPq/FAPEAM), Vera Val apresentará na manhã da próxima sexta-feira (25) a professora Erlei Keppeler, que irá tratar sobre piscicultura, qualidade de água e os avanços da piscicultura no Acre, e, durante à tarde, a pesquisadora será responsável por coordenar uma mesa-redonda como debatedora sobre os temas aquicultura e recursos pesqueiros no país.

 

A Reunião da SBPC iniciou nesta terça-feira (22) e segue até domingo (27), na Universidade Federal do Acre (UFAC). O Inpa, que possui um Núcleo de Apoio à Pesquisa no Acre (NAPAC), participará do evento com a contribuição de 15 pesquisadores em diversas atividades (conferências, mesas-redondas, palestras, minicursos). Além de Vera Val, estão, por exemplo, o coordenador-geral do projeto INCT-ADAPTA e ex-diretor do Inpa, Adalberto Val; o coordenador de Extensão do Inpa, Carlos Bueno; e o pesquisador Philip Fearnside. Acompanhe a entrevista.

 

Como seria possível aliar ciência e tecnologia à aquicultura e piscicultura desenvolvidas na Amazônia?

 

Na Amazônia, a aquicultura é um caminho importante a ser seguido, mesmo porque algumas espécies que são alvo da pesca por terem mais apelo comercial, como o pirarucu e o tambaqui, têm seus estoques bastante pescados próximos às regiões urbanas. Do ponto de vista econômico, os tambaquis que vivem na natureza ficam cada vez mais caros de se comercializar. Por outro lado, a piscicultura precisa de um pacote tecnológico forte para que seja realizada com qualidade e ofereça rendimento econômico. Atualmente, não temos esse pacote. Há um debate sobre a elaboração de projetos mais viáveis de piscicultura e muitos trabalhos sobre o tambaqui vêm sendo desenvolvidos. Essa espécie é o carro-chefe da aquicultura na região Norte.

 

Do que tratam esses estudos?

 

Os trabalhos têm como tema a nutrição, as taxas de crescimento, a “engorda”, a genética, e a perda da variabilidade genética nessas criações pode causar uma dificuldade do animal em se adaptar a qualquer mudança climática. Então, a aquicultura permeia várias áreas, é uma questão multidisciplinar, e deve ser cada vez mais endereçada à qualidade do pescado que se adquire dela. A sanidade também é uma área muito importante, porque o pescado deve estar sadio, livre de parasitas, de doenças, etc. A comercialização desses peixes retirados de fazendas de aquicultura e tratados, a tecnologia de prevenção, de manutenção, o tempo de freezer do tambaqui, o quanto essa carne tolera, é tudo feito por estudiosos de tecnologia do pescado. Esses estudos precisam ser reunidos e debatidos em uma única vertente para melhorar a cadeia produtiva do tambaqui. Necessitamos de uma linha de trabalho bem estabelecida do ponto de vista da aquicultura.

 

Quais poderão ser os impactos provocados pelas mudanças climáticas nessas atividades realizadas no território brasileiro?

 

As mudanças climáticas poderão afetar os planteis de fazendas de piscicultura. Talvez nem tanto na região Norte, em função das altas temperaturas já predominantes aqui – 28oC em média – e do grande manancial de água que a Amazônia detém, o qual compreende 45% da água doce de todo o Brasil e 20% da água doce do planeta. De qualquer forma, um aumento gradativo na temperatura provoca mudanças nas taxas metabólicas, no consumo de oxigênio, no consumo de alimento, e isso pode levar a uma mudança no quadro econômico da piscicultura, ou seja, reduzir o potencial de criação de peixes e, consequentemente, o número de animais comercializados. Nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul, as pisciculturas tanto de camarão quanto de espécies de peixe vão sofrer bastante com as mudanças climáticas, inclusive já estão sofrendo com as secas. O regime de secas e cheias sempre existiu, mas a população em geral passa por ele sem se dar conta de sua importância para a biologia dos animais e a vida como um todo nos ecossistemas. Quando ocorre uma grande seca, uma grande cheia, ou alguma alteração nos níveis de chuva, o povo começa a atentar para essas questões. A Amazônia é responsável por boa parte das chuvas no Sudeste, e o seu desmatamento tem a ver com a falta de chuva atual que está causando uma seca enorme nos reservatórios de água no Sudeste. Não adianta pensarmos em uma solução para o Sudeste e não termos uma para o Norte e Nordeste. Devemos pensar de maneira global quanto ao meio ambiente e, em particular, quanto à atividade da piscicultura. Acredito que esses debates são necessários porque conseguimos reunir pesquisadores de várias vertentes e regiões para tentar resolvê-los.

 

Que outras temáticas serão abordadas durante a Reunião da SBPC com a sua participação?

 

Provavelmente, as discussões vão ser centradas em: “qual o papel da piscicultura para o desenvolvimento do país?”. Assuntos como segurança alimentar, desenvolvimento sustentável, melhoria da oferta de empregos para populações ribeirinhas, aquicultura, beneficiamento, tratamentos tecnológicos para melhorar a qualidade do filé, a maneira de servir, entre outros. Além disso, vamos trabalhar a piscicultura diante de um quadro da biodiversidade e redução de estoques pesqueiros nas várias regiões do país, não somente na Amazônia; a mudança cultural necessária no brasileiro para que comece a se alimentar mais de pescado que de carne bovina, suína e de aves; e a influência das mudanças climáticas sobre a atividade pesqueira, tanto na oferta de recursos pesqueiros naturais para pesca, quanto na aquicultura.

 

Qual deve ser o direcionamento desse debate?

 

Pretendo direcionar o debate para que pensemos em que ponto estamos da aquicultura no país, se é que podemos determinar para o Brasil todo um só padrão – acredito que não – e quais as ferramentas necessárias para alcançar um bom modelo de aquicultura e homogeneizá-lo, com o objetivo de levar para cada região a aquicultura como ela deve ser, e que essa atividade dê lucro ao piscicultor, ofereça o pescado a um custo menor ao consumidor e, claro, de boa qualidade. Para isso, três palestrantes estarão envolvidos diretamente com a aquicultura e os recursos pesqueiros: o professor Alexandre Hilsdorf, de Mogi das Cruzes; a professora Emiko Kawakami, de Cuiabá; e o professor Evoy Zaniboni, de Florianópolis. Todos eles são especialistas em criação e manejo de recursos pesqueiros e poderão nos dar uma excelente contribuição, mostrando o que há de avanço e onde precisamos avançar mais para que o setor cresça de maneira ordenada e possa trazer melhorias para todas as regiões do país.

 

Ainda falando sobre a região amazônica, o tema da reunião esse ano é “Ciência e tecnologia em uma Amazônia sem fronteiras”. Para a senhora, qual o significado disso?

 

Estamos inseridos em um ecossistema que permeia vários países e cujas fronteiras políticas não são impostas à natureza. Temos que trabalhar junto aos países vizinhos criando acordos que possam cuidar do meio ambiente, ajudar em projetos comuns para estudos de determinadas atividades, não só de piscicultura, mas de outros temas da biodiversidade, da qualidade dos rios, do desmatamento. Essas questões têm que permear todos os países amazônicos. O Brasil detém a maior parte da floresta, mas nove países fazem parte da Amazônia. A ave, o peixe, o primata, o roedor, e os pequenos e grandes mamíferos não reconhecem as fronteiras. Eles permeiam somente um bioma. A política deve se inserir nesse assunto e abranger toda a parte de ciência e tecnologia com a criação de acordos internacionais entre os países. Europa, América do Norte e Ásia se preocupam muito com o futuro da Amazônia, e nós temos o dever de estar à frente dessa preocupação e das soluções que podemos dar a ela. Acho que o Brasil e a SBPC, nossa academia em geral, possuem liderança suficiente para estar à frente, e por isso a escolha desse tema, para que possamos falar com os povos vizinhos e trabalhar juntos. O Brasil tem um papel de liderança em ciência e tecnologia, porque é um dos países amazônicos que mais gera conhecimento e tecnologias novas para a região.