Espécies de peixes pulmonados sobrevivem a sazonalidades no ambiente por meio da estivação

Por Ana Luisa Hernandes

 

Espécies de peixes que apresentam pulmões e são capazes de respirar ar do ambiente. Este foi o assunto do seminário ministrado pela mestra Luciana Mara Lopes Fé, na terça-feira, 27 de maio, no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), localizado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA/MCTI). Intitulado “A estivação em peixes pulmonados”, o tema fará parte de um capítulo do livro “Filogenia, anatomia e fisiologia dos peixes primitivos” que trata dos aspectos evolutivos e da biologia comparada destes animais.

 

Segundo Luciana, os peixes pulmonados são classificados em três gêneros e estão distribuídos no hemisfério sul, onde são restritos à água doce. “Uma espécie do gênero Lepidosiren encontra-se na América do Sul, quatro espécies de Protopterus estão na África, e uma espécie do gênero Neoceratodus habita a Austrália”, afirmou. A representante sul-americana, Lepidosiren paradoxa, foi a primeira espécie de peixe pulmonado a ser descoberta, em 1836, por um naturalista. Os nativos deram a ela o nome de piramboia, ou peixe-cobra, devido ao seu formato alongado.

 

Ainda de acordo com a pesquisadora, estas espécies também se dividem conforme a quantidade de pulmões que possuem, entre elas: as Ceratodontiformes (a espécie australiana pertence a essa ordem e apresenta um pulmão) e as Lepidosireniformes (as espécies sul-americana e africana pertencem a essa ordem, apresentam dois pulmões e respiração aérea obrigatória).

 

Outro fato curioso que acontece com os grupos Protopterus e Lepidosiren trata-se da capacidade de estivação – mecanismo de sobrevivência a períodos de seca e escassez de alimentos nos ambientes naturais – desses organismos. “As espécies africana e sul-americana habitam áreas que passam por cheias e secas periódicas. Durante a cheia, elas se alimentam bastante, e, quando o nível da água começa a baixar, as espécies cavam colunas verticais na lama, por meio de suas nadadeiras pélvicas e peitorais, onde permanecem em formato de “U”. Cada uma dessas “tocas de estivação” apresenta uma abertura que fica em contato direto com o meio ambiente e, assim, os peixes conseguem realizar a respiração aérea. Já o último estágio, que ocorre somente com as espécies africanas, é a formação do cocoon, um tipo de casulo que as protegem contra a dissecação nesses ambientes”, explicou a mestra.

 

No entanto, o que acontece quando essas espécies são submetidas a experimentos que simulam a estivação? Como o organismo delas reage a esse processo? Trabalhos realizados por diversos pesquisadores comprovaram que, quando induzidos a uma estivação forçada, esses peixes apresentaram redução no seu metabolismo, seguido pela redução das frequências cardíacas e respiratórias, ausência da atividade muscular e emagrecimento progressivo.

 

Ao final da palestra, Luciana Fé destacou que os peixes pulmonados da espécie sul-americana (Lepidosiren) não produzem secreções mucosas para a formação do cocoon como fazem as espécies africanas (Protopterus), sendo estas mais resistentes à dissecação. Além disso, ela afirmou que a estivação aparece como um fator capaz de promover a adaptação e consequente perpetuação desse grupo de peixes considerados “fósseis vivos”.