Peixe da espécie Lipophrys pholis elimina amônia através da pele em situações de desafio ambiental

Por Ana Luisa Hernandes

 

“Excreção de resíduos nitrogenados em peixes anfíbios”. Este foi o tema do seminário ministrado na sexta-feira, 16 de maio, pela doutora Luciana Rodrigues de Souza-Bastos, da Universidade Federal do Paraná. Pesquisadores e bolsistas prestigiaram a apresentação que aconteceu no auditório do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), localizado no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI).

 

De acordo com a pesquisadora, o processo de excreção consiste na eliminação de compostos resultantes do metabolismo que podem ser o gás carbônico, a água, os sais minerais e os resíduos de nitrogênio. “Basicamente, os organismos se alimentam de lipídeos, carboidratos, proteínas e ácidos nucleicos. Da degradação de proteínas e ácidos nucleicos resultam, além de gás carbônico e água, agregados de nitrogênio, os compostos amônia, uréia e ácido úrico”, afirmou.

 

Estes compostos, conhecidos como resíduos nitrogenados, estão diretamente relacionados ao habitat dos animais e à dependência deles quanto à reserva de água, ao desenvolvimento e à reprodução. “Tendo em vista o tipo de composto que os organismos eliminam, eles podem ser classificados em amoniotélicos (quando excretam amônia), ureotélicos (quando excretam uréia) ou uricotélicos (quando excretam ácido úrico)”, destacou Luciana.

 

Sendo assim, a amônia (principal resíduo nitrogenado de animais aquáticos) é um composto muito tóxico, porém, bastante solúvel, e não pode ser acumulado no organismo mesmo em baixíssimas concentrações; a uréia (característica de animais terrestres como mamíferos e anfíbios adultos) pode ser considerada moderadamente tóxica, altamente solúvel, e pode, em baixas concentrações, ser acumulada no organismo; já o ácido úrico (encontrado em aves, insetos, caracóis e répteis) é pouco tóxico, não solúvel, e, portanto, pode ser acumulado no organismo em altas concentrações.

 

Em se tratando dos animais aquáticos, a espécie de peixe escolhida para a realização desse estudo, denominada Lipophrys pholis ou comumente conhecida como caboz gigante, possui uma ampla distribuição geográfica da Mauritânia à Noruega e é, normalmente, submetida a situações de desafio ambiental como redução de salinidade, alteração de pH, exposição ao ar, entre outras. “O curioso desse peixe é que em maré baixa, ele se apoia em suas nadadeiras abdominais afastando seu abdômen do solo a fim de se expor ao sol”. Dessa forma, tentamos entender porque ele protege o abdômen e se isso teria alguma relação com as funções vitais dele”, explicou a doutora.

 

A partir destes questionamentos, a espécie foi submetida a quatro desafios ambientais por um dia: ar, água doce, aumento da amônia externa na água e injeção de amônia. Durante a exposição ao ar, os peixes mantiveram a excreção de amônia, a qual passou a ser realizada através da pele; já a exposição à água doce foi bastante prejudicial à espécie, levando ao aumento de peso, retenção de água no tecido muscular e redução da eliminação de amônia em cerca de 83%; diante da exposição ao aumento da concentração de amônia na água (externa) e também diante da injeção de amônia (aumento da concentração interna), os peixes conservaram a taxa de excreção do composto, situação contrária ao relatado na literatura em que era esperado a conversão deste resíduo em uréia.

 

Como resultados do trabalho, Luciana de Souza Bastos ressaltou que esta espécie se mostrou bastante resistente às condições de desafio ambiental às quais foi submetida, que a pele aparece como fundamental ao processo de eliminação de amônia para esses animais, e que o experimento mais desafiador a esses organismos foi a exposição à água doce. “Não identificamos nenhuma alteração nas quatro condições de desafio às quais expusemos esses animais. Talvez porque 24 horas seja um tempo muito curto para um peixe que se expõe, voluntariamente, à respiração na superfície da água por cinco dias”, concluiu.