Variações de temperatura da água causam mudanças fisiológicas no tambaqui

Por Ana Luisa Hernandes

 

Pesquisadores e bolsistas do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM) e da comunidade científica prestigiaram na segunda-feira, 5 de maio, a defesa da tese de doutorado da aluna Alzira Miranda de Oliveira, do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Água Doce e Pesca Interior (BADPI/Inpa). Com o título “Influência da temperatura ambiental e dos cenários climáticos futuros sobre os ácidos graxos ω-3 e ω-6 e desempenho zootécnico do tambaqui (Colossoma macropomum)”, o trabalho foi orientado pelo Dr. Adalberto Luis Val.

 

De acordo com Alzira, o tambaqui é um peixe bastante apreciado na culinária local e, por isso,  foi a primeira espécie cultivada na Amazônia. Hoje, é a segunda espécie cultivada no Brasil, tendo em vista suas peculiaridades. “Acredito que a ampliação do cultivo do tambaqui no Brasil se deve às suas características, tais como o bom potencial de crescimento, a alta produtividade e a rusticidade dele”, justificou a pesquisadora.

 

A partir da seleção, 12 exemplares de tambaquis foram coletados em quatro pontos distintos classificados como ambiente natural e de cultivo. O primeiro deles foi considerado ambiente natural, sendo os exemplares coletados no Lago Catalão. Os outros três pontos de coleta, caracterizados como pisciculturas, apresentavam estruturas diferentes de criação: tanque e rede (Lago do Tupé); tanque escavado (Careiro da Várzea); e canal de igarapé (estrada de Manacapuru). Em cada ponto de coleta, as variáveis limnológicas foram avaliadas, o que permitiu detectar a influência do tipo de ambiente sobre a fisiologia do tambaqui.

 

“Para a temperatura, obtivemos uma diferença estatística entre o canal de igarapé e o tanque escavado, onde o primeiro apontou menor temperatura e o segundo maior temperatura. Em relação ao pH, houve um aumento apenas para o canal de igarapé, o que pode ter sido ocasionado pela presença de um balneário próximo ao local de coleta”, explicou Alzira.

 

Em relação à fisiologia da espécie, a pesquisadora afirmou que “a maior variação foi detectada no canal de igarapé, que revelou uma grande concentração de hemoglobina, hematócrito e glóbulos vermelhos nos peixes deste ambiente, o que pode ter sido ocasionado pelo aumento da demanda metabólica causada pela natação forçada, uma vez que no canal de igarapé há um maior fluxo de água. Já no tanque escavado, também houve o aumento da concentração de hemoglobina justificado pela elevação da temperatura”, ressaltou.

 

Com base nas análises realizadas, Alzira Miranda destacou que os menores índices de temperatura foram observados no canal de igarapé e afirmou que, embora o tambaqui habite locais onde a temperatura varia de 25 a 34°C, neste trabalho, o canal de igarapé e o tanque escavado aparecem como os principais responsáveis pelas diferentes modificações no funcionamento do organismo desta espécie.

 

Continuação do estudo

 

A segunda parte da pesquisa desenvolvida pela aluna Alzira Miranda de Oliveira na sua tese de doutorado foi destaque durante o V Workshop INCT Adapta, ocorrido de 24 a 27 de março deste ano no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). O coordenador do projeto Adapta e orientador da tese, Dr. Adalberto Luis Val, relatou que estudos preliminares apontavam que as mudanças climáticas afetariam o tamanho do tambaqui. Ainda de acordo com ele, os experimentos feitos no microcosmos – salas que simulam as mudanças climáticas conforme previsão do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em 2007 - sugeriam um retardamento do crescimento do tambaqui, uma das espécies de peixe de maior potencial econômico da região amazônica. As informações fornecidas durante o evento foram confirmadas pela pesquisadora na defesa da tese realizada no auditório do LEEM. Ela finalizou a apresentação do trabalho enfatizando que o aumento da temperatura e do gás carbônico (CO2) ocasionam a diminuição do crescimento do tambaqui quando exposto ao ambiente considerado extremo para o ano 2100.