Mudança de percurso do rio Cuieiras pode causar alteração genética do peixe ‘carazinho’

Por Ana Luisa Hernandes

 

Estudar uma possível alteração genética em duas espécies de peixes do gênero Apistogramma (A. gephyra e A. pulchra) – peixes de água doce de pequeno porte conhecidos como carazinho ou acará-anão – a partir da mudança de percurso do rio Cuieiras. Este é o objetivo de uma pesquisa realizada pela doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (GCBev/Inpa/MCTI), Carolina Sousa de Sá Leitão.

 

A partir de um recorte do estudo, Carolina Leitão, do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), apresentou a palestra “O uso da Filogeografia na inferência da estrutura genética de populações”, na terça-feira, 28 de janeiro, utilizando o conceito de Filogeografia (análise de processos e padrões relacionados à distribuição geográfica de linhagens evolutivas). O trabalho foi orientado pela Dra. Vera Maria Fonseca de Almeida-Val.

 

“Especificamente para este trabalho, a alteração no percurso do rio Cuieras pode ter funcionado como barreira geográfica para a distribuição e fluxo gênico das populações de Apistogramma. Comprovando essa alteração, pretende-se verificar o nível de diferenciação genética entre as populações, sua distribuição, e se essas espécies podem ser consideradas uma população distinta ou uma única população”, explicou a doutoranda.

 

Ainda de acordo com ela, o gênero Apistogramma foi escolhido para o estudo devido ao seu alto valor comercial, à variedade de espécies que ele apresenta (mais de 64 válidas), e por ser um dos mais adaptáveis e resistentes da Região Amazônica.

 

Durante a coleta dos peixes para averiguação, nos pontos extremos do rio Cuieiras e do Tarumã-Mirim, ambos afluentes do rio Negro (estado do Amazonas), só foi possível encontrar uma das espécies em cada localidade, segundo a cientista. Já em outros dois pontos, foram coletadas as duas. “Na parte superior, onde está o igarapé Cachoeira (rio Cuieiras), só havia a espécie A. gephyra, e no Tarumã-Mirim, somente a espécie A. pulchra”, relatou.

 

Para a pesquisadora, duas hipóteses podem ajudar a esclarecer o que aconteceu com essas espécies de peixes: a vicariância e a dispersão. “A primeira, consiste no surgimento de uma barreira geográfica em determinado ambiente que forçou a divisão de uma população, ocasionando a formação de duas espécies diferentes; e a segunda, diz respeito à ultrapassagem de barreira por uma população por meio de dispersão, fazendo com que duas novas espécies se originem”, descreveu.

 

Com o objetivo de examinar padrões da distribuição de variação gênica nos peixes e distinguir o que pode ser causado por fluxo gênico (migração de genes entre populações) ou evento histórico, a doutoranda selecionou marcadores moleculares – ferramentas baseadas na heterogeneidade do DNA, úteis para diferenciação e comparação de características populacionais e evolutivas dos organismos - que considerou fundamentais à determinação dos resultados: o DNA mitocondrial (Cytb, COI e 16S), o marcador nuclear (RAG), e os microssatélites.

 

“Como consequência genética da fragmentação populacional, está a alteração no nível de fluxo gênico dentre os indivíduos. Essa interferência afeta a troca de material genético entre e dentre as populações, o que fará com que haja a perda na variabilidade genética e potencial adaptativo. Isso levará, futuramente, a uma baixa na diversidade genética, aumento na diferenciação entre as populações, e possível extinção da espécie”, completou.

 

Leitão lembrou que a abordagem molecular está revolucionando os estudos biogeográficos, permitindo a reconstrução da história de diversificação de populações, espécies e biotas, e tem ajudado na implementação de estratégias de manejo e conservação.