Peixes de água doce são submetidos a altas temperaturas que simulam mudanças climáticas

Por Ana Luisa Hernandes

 

O auditório do LEEM recebeu na sexta-feira, 24 de janeiro, o seminário “Hot Fish – climate change impacts on inland fisheries” ministrado por Dominique Lapointe, pós-doutoranda na Universidade de Carleton, em Ottawa, no Canadá. O trabalho consiste em uma cooperação internacional liderada e financiada pelo Conservation International (Estados Unidos). Bolsistas e demais pesquisadores estiveram presentes no evento.

 

De acordo com a cientista, o desenvolvimento do projeto “Hot Fish”, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), surgiu da chamada “Hipótese de Jansen”, criada em 1967, que sugere uma diferença na tolerância térmica entre organismos de regiões temperadas e tropicais, devido, principalmente, à menor variação na temperatura do ambiente nos trópicos. “Em ambientes aquáticos de regiões temperadas, os organismos ectotérmicos, por exemplo, aqueles em que a temperatura interna é determinada pelo equilíbrio com as condições térmicas do meio externo, tais como os peixes, desenvolveram uma ampla tolerância térmica. Isso pode ser comprovado pela observação da grande variação na temperatura corpórea desses organismos entre os períodos de inverno e verão nas regiões temperadas. Por outro lado, os peixes tropicais parecem não ter desenvolvido uma ampla faixa de tolerância térmica, uma que vez que eles habitam corpos d’água que sofrem apenas pequenas variações sazonais na temperatura”, explicou Lapointe.

 

A partir destas informações, a pesquisadora também relatou que as mudanças climáticas podem ser potencialmente prejudiciais à manutenção do equilíbrio dos ambientes de água doce de regiões tropicais, tais como o Rio Negro, já que estes sustentam uma importante diversidade biológica. “Os peixes de regiões tropicais são provavelmente mais sensíveis a pequenas oscilações na temperatura do ambiente aquático, tais como as antecipadas pelos relatórios de mudanças climáticas”, disse. Além disso, as alterações climáticas em regiões tropicais podem colocar em risco a segurança alimentar humana. “Nos países em desenvolvimento, os peixes representam importante fonte de proteína aos seres humanos e também são fudamentais à geração de renda”, afirmou.

 

Dentre os principais objetivos do projeto estão: (i) Avaliar como os peixes de água doce de regiões tropicais seriam afetados pelo aumento da temperatura da água em resposta às mudanças climáticas globais. Para isso, a cientista pretende utilizar a técnica de respirometria a fim de determinar as faixas de temperatura específicas para a manutenção da atividade metabólica nos animais, além de examinar os mecanismos fisiológicos e moleculares envolvidos com o estabelecimento das faixas de tolerância térmica nas espécies. (ii) Oferecer melhorias à pesquisa com o uso de equipamentos e realização de treinamentos necessários. “O Brasil é nossa primeira parada, mas também vamos trabalhar na Uganda e no Camboja. Estes três locais foram definidos porque a pesca de água doce é muito importante para a segurança alimentar das populações, e em cada um destes locais vamos estudar duas espécies de peixes. Aqui em Manaus, por exemplo, escolhemos o matrinxã e o tambaqui, e em cada um deles examinamos parâmetros como sangue, peso, crescimento e taxa metabólica”, contou a doutora.

 

Durante o período inicial dos experimentos, um sistema com tanques foi construído na parte de trás do LEEM. Para cada espécie de peixe foram feitos três tratamentos diferentes com filtros mecânicos, químicos e biológicos: o primeiro consistiu em submeter os animais à temperatura ambiente, o segundo à temperatura ambiente mais 2°C, e o terceiro à temperatura ambiente mais 4°C. A escolha pelo aumento das temperaturas se deu através dos níveis os quais estas espécies terão que suportar a partir das mudanças climáticas. Ao todo, 60 peixes foram analisados.