Pesquisadores debatem no Inpa efeitos das mudanças climáticas em espécies da Amazônia

O V Workshop INCT-Adapta reúne pesquisadores que atuam diretamente no microcosmos, salas que simulam os efeitos das mudanças climáticas para daqui a 100 anos

 

Por Ana Luisa Hernandes

 

Com o tema “Novos paradigmas científicos e mudanças climáticas globais”, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI) promove o V Workshop INCT Adapta, que acontece de 24 a 27 de março no auditório da Ciência no Bosque da Ciência, localizado na Rua Otávio Cabral, bairro Petrópolis, zona centro-sul de Manaus (AM).

 

O evento tem como objetivo apresentar os avanços obtidos ao longo do desenvolvimento do projeto Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (Adapta), além de proporcionar a discussão e o surgimento de novos questionamentos científicos. O encontro é voltado para pesquisadores, mas na ocasião serão divulgados resultados dos trabalhos.

 

A programação do workshop terá palestras que serão ministradas por líderes de laboratórios associados ao Adapta, apresentações de comunicações orais e pôsteres de estudantes pós-graduandos do projeto, e uma reunião de trabalho com líderes de outros Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs).

 

Segundo o diretor do Inpa e coordenador do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), Adalberto Val, dentre os principais resultados de pesquisas desenvolvidas no Adapta estarão os referentes ao sistema microcosmos, que consiste na análise dos efeitos de cenários climáticos previstos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para o ano 2100, sobre os organismos aquáticos, tendo em vista variações de temperatura e gás carbônico (CO2).

 

No último dia de evento, os relatores das diferentes sessões avaliarão o encontro e irão redigir um relatório síntese sobre ele. Já a sessão de encerramento trará a seleção e premiação dos melhores resultados apresentados por estudantes nas categorias comunicação oral e pôster.

Baixe a programação aqui.

 

Mudança de percurso do rio Cuieiras pode causar alteração genética do peixe ‘carazinho’

Por Ana Luisa Hernandes

 

Estudar uma possível alteração genética em duas espécies de peixes do gênero Apistogramma (A. gephyra e A. pulchra) – peixes de água doce de pequeno porte conhecidos como carazinho ou acará-anão – a partir da mudança de percurso do rio Cuieiras. Este é o objetivo de uma pesquisa realizada pela doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (GCBev/Inpa/MCTI), Carolina Sousa de Sá Leitão.

 

A partir de um recorte do estudo, Carolina Leitão, do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM), apresentou a palestra “O uso da Filogeografia na inferência da estrutura genética de populações”, na terça-feira, 28 de janeiro, utilizando o conceito de Filogeografia (análise de processos e padrões relacionados à distribuição geográfica de linhagens evolutivas). O trabalho foi orientado pela Dra. Vera Maria Fonseca de Almeida-Val.

 

“Especificamente para este trabalho, a alteração no percurso do rio Cuieras pode ter funcionado como barreira geográfica para a distribuição e fluxo gênico das populações de Apistogramma. Comprovando essa alteração, pretende-se verificar o nível de diferenciação genética entre as populações, sua distribuição, e se essas espécies podem ser consideradas uma população distinta ou uma única população”, explicou a doutoranda.

 

Ainda de acordo com ela, o gênero Apistogramma foi escolhido para o estudo devido ao seu alto valor comercial, à variedade de espécies que ele apresenta (mais de 64 válidas), e por ser um dos mais adaptáveis e resistentes da Região Amazônica.

 

Durante a coleta dos peixes para averiguação, nos pontos extremos do rio Cuieiras e do Tarumã-Mirim, ambos afluentes do rio Negro (estado do Amazonas), só foi possível encontrar uma das espécies em cada localidade, segundo a cientista. Já em outros dois pontos, foram coletadas as duas. “Na parte superior, onde está o igarapé Cachoeira (rio Cuieiras), só havia a espécie A. gephyra, e no Tarumã-Mirim, somente a espécie A. pulchra”, relatou.

 

Para a pesquisadora, duas hipóteses podem ajudar a esclarecer o que aconteceu com essas espécies de peixes: a vicariância e a dispersão. “A primeira, consiste no surgimento de uma barreira geográfica em determinado ambiente que forçou a divisão de uma população, ocasionando a formação de duas espécies diferentes; e a segunda, diz respeito à ultrapassagem de barreira por uma população por meio de dispersão, fazendo com que duas novas espécies se originem”, descreveu.

 

Com o objetivo de examinar padrões da distribuição de variação gênica nos peixes e distinguir o que pode ser causado por fluxo gênico (migração de genes entre populações) ou evento histórico, a doutoranda selecionou marcadores moleculares – ferramentas baseadas na heterogeneidade do DNA, úteis para diferenciação e comparação de características populacionais e evolutivas dos organismos - que considerou fundamentais à determinação dos resultados: o DNA mitocondrial (Cytb, COI e 16S), o marcador nuclear (RAG), e os microssatélites.

 

“Como consequência genética da fragmentação populacional, está a alteração no nível de fluxo gênico dentre os indivíduos. Essa interferência afeta a troca de material genético entre e dentre as populações, o que fará com que haja a perda na variabilidade genética e potencial adaptativo. Isso levará, futuramente, a uma baixa na diversidade genética, aumento na diferenciação entre as populações, e possível extinção da espécie”, completou.

 

Leitão lembrou que a abordagem molecular está revolucionando os estudos biogeográficos, permitindo a reconstrução da história de diversificação de populações, espécies e biotas, e tem ajudado na implementação de estratégias de manejo e conservação.

 

Utilização de hormônios em espécies de peixes pode beneficiar a Aquicultura

Por Ana Luisa Hernandes

 

O mestrando do curso de Pós-Graduação em Aquicultura da Universidade Nilton Lins, em convênio com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Arlan de Lima Paz, apresentou nesta terça-feira, 14 de janeiro, a palestra “Efeitos do GH (growth hormone) e sua importância na Aquicultura”, abrindo a programação de seminários de 2014 no auditório do LEEM. Pesquisadores, bolsistas e o orientador do projeto, Dr. Adalberto Luis Val, acompanharam a apresentação.

 

Segundo o pesquisador, de 2007 a 2009, o setor de Aquicultura foi o que mais se desenvolveu em relação às outras atividades agropecuárias. “No cenário mundial, o Brasil produziu 479,4 mil toneladas de peixes, tornando-se o terceiro maior produtor das Américas, e o 17º entre os maiores produtores mundiais em 2010, de acordo com o último censo”, destacou. Já na Região Norte, o crescimento do setor foi significativo se comparado a outras localidades. “Algumas características são favoráveis a isso, como a abundância em recursos hídricos e o alto índice de consumo de peixes na Amazônia. Porém, precisamos focar na pesquisa de espécies nativas e desenvolver essa atividade visando o avanço econômico e social na região”, alertou.

 

Após enfatizar a importância da Aquicultura, Arlan Paz apresentou as característicase ações do hormônio do crescimento em vertebrados, foco principal de seu estudo. “O GH modula parte dos processos que atuam no crescimento e desenvolvimento celular dos organismos. Os efeitos dele afetam não somente o crescimento dos vertebrados, mas características fisiológicas e comportamentais como eficiência na conversão alimentar, apetite, composição corporal, imunidade, além de estar envolvido nos processos de reprodução, osmorregulação e tolerância à hipóxia”, afirmou.

 

A partir da realização de experimentos e análises em espécies de peixes por outros cientistas, tendo como base o hormônio do crescimento, foi possível comprovar que o GH: (i) estimula o metabolismo celular destes animais; (ii) altera o padrão de resistência à hipóxia em peixes geneticamente modificados (transgênicos); (iii) proporciona maiores gastos osmorregulatórios; e, em caso de aplicação de hormônio bovino, (iv) favorece o crescimento dos peixes de modo mais eficaz.

 

O pesquisador concluiu a palestra de maneira crítica, alegando que o uso do GH tem se mostrado efetivo, mas parece ainda não ser viável em escala comercial, e que os efeitos provocados por este hormônio no organismo dos peixes devem ser melhor investigados.

 

Diversidade genética permite adaptação de espécies a ambientes modificados pelo homem

Por Ana Luisa Hernandes

 

“Conservação genética de peixes tropicais”. Este foi o tema da palestra desta terça-feira, 10 de dezembro, ministrada pelo pós-doutorando Carlos Henrique dos Anjos dos Santos. Pesquisadores e bolsistas prestigiaram a apresentação realizada no auditório do LEEM.

 

Tendo em vista as destruições provocadas pelo homem em relação ao meio ambiente e aos seres vivos que o compõem, é impossível pensar na conservação da biodiversidade atual e futura sem a contribuição da ciência, no que diz respeito a utilização de modificações genéticas como ferramentas benéficas e eficientes para uma possível salvação destas espécies. Assim, o mau uso ou a destruição da natureza e seus componentes, nos leva a pensar em um caminho sem volta: a extinção.

 

Segundo Carlos Henrique dos Santos, a extinção consiste em um processo natural que pode levar milhões de anos para eliminar uma espécie. Os principais fatores que contribuem para este fenômeno são a perda do habitat, a poluição, a inserção de espécies exóticas em ambientes que não são de sua natureza, as fragmentações causadas pelo homem como construções de usinas hidrelétricas e estradas, a superexploração econômica de áreas, e a caça predatória.

 

Ainda de acordo com o pesquisador, o desaparecimento total de espécies pode ocorrer de três maneiras. A primeira, conhecida como extinção de fundo, acontece quando uma espécie é substituída por outra através da mudança de ecossistemas; a segunda, chamada extinção maciça, é proveniente de alguma catástrofe natural; e a terceira, extinção antrópica, dá-se quanto as alterações provocadas nos ecossistemas pelo homem. O estudo destaca que 2 a 8% das espécies atuais estarão extintas em 25 anos.

 

Apesar deste dado preocupante, existe uma luz no fim do túnel: a diversidade genética, crucial para que as espécies, em geral, se perpetuem durante gerações ou mesmo milhares de anos em determinadas regiões. Carlos Henrique dos Santos explicou que caso esta diversidade seja alterada, ocorrerá uma disfunção no número de descendentes que os peixes tropicais, por exemplo, possam deixar, interferência na fertilidade, e até mesmo infertilidade em algumas delas.
A variabilidade genética também possibilita que as espécies (em geral, ou de peixes tropicais conforme o estudo) se adaptem a ambientes mutantes, principalmente, aqueles modificados pelo homem. Se ela for baixa em vários genes de uma mesma espécie, esta terá sério risco de extinguir-se, o que normalmente acontece em cruzamentos com indivíduos aparentados.

 

Ao final da palestra, o pesquisador ressaltou que o Brasil concentra 20% das espécies de peixes total do planeta, sendo que 5.000 a 8.000 espécies de peixes de água doce encontram-se na Região Amazônica.

 

Uso de herbicida para controlar plantas aquáticas infestantes no entorno de tanques pode prejudicar saúde de peixes

Por Ana Luisa Hernandes

 

O auditório do LEEM recebeu nesta terça-feira, 3 de dezembro, a palestra “Os efeitos do Roundup em peixes”, ministrada pela aluna de iniciação científica Susana Braz Mota. O estudo foi orientado pela Dra. Vera Maria Fonseca de Almeida-Val, e o evento contou com a participação de pesquisadores e bolsistas.

 

O trabalho avaliou como a utilização do Roundup – um herbicida formado por sal glifosato e surfactante polioxietilenoamina (POEA), caracterizado por seu nível de toxicidade – pode afetar organismos aquáticos, como os peixes, a partir do contato destes animais com a substância.

 

Segundo Mota, no Brasil, o Roundup costuma ser aplicado na agricultura a fim de eliminar pragas, principalmente nas plantações de soja, arroz irrigado e cana-de-açúcar. Já na Amazônia, este herbicida é usado em torno de tanques de piscicultura, com o objetivo de controlar plantas aquáticas infestantes nestes locais.

 

Ainda de acordo com a pesquisadora, o tambaqui, espécie de peixe símbolo da Amazônia, foi escolhido para o estudo por ser bastante utilizado na aquicultura e resistente a doenças e águas pobres em íons.

 

O experimento foi então delineado da seguinte forma: três tambaquis ficaram expostos durante 96 horas a duas concentrações do herbicida, uma de 10mg/litro e outra de 15mg/litro. Após este período, sangue, fígado, brânquias e cérebro destes animais foram retirados para averiguação.

 

Por fim, a partir dos biomarcadores utilizados nas análises realizadas, a concentração maior, ou seja, a de 15mg/litro, foi a que mais gerou alterações nos organismos dos peixes. O Roundup não promoveu mudanças osmoregulatórias nos tambaquis estudados, porém, foi capaz de modificar parâmetros bioquímicos, fisiológicos, morfológicos, neurotóxicos e quebras de DNA dos animais.

 

Pesquisadora afirma que biomarcadores contribuem para detecção de contaminantes em peixes amazônicos

Por Ana Luisa Hernandes

 

A doutoranda do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), Helen Sadauskas-Henrique, apresentou nesta terça-feira, 26 de novembro, a palestra “Biomarcadores de contaminação ambiental” no auditório do LEEM. O evento, que ocorre todas as terças à tarde, contou com a participação da orientadora do projeto Dra. Vera Maria Fonseca de Almeida-Val, outros pesquisadores e bolsistas.

 

O trabalho apresentou os tipos de biomarcadores – indicadores que sinalizam eventos no sistema biológico – e como eles contribuem para apontar possíveis danos em peixes amazônicos nos níveis individual, de populações e de comunidades, tendo em vista modificações no ambiente em que vivem, principalmente aquelas provocadas pelo homem, como a liberação de agentes tóxicos no ambiente aquático.

 

Para isso, a pesquisadora apresentou dois estudos realizados em laboratório com dois tipos de substâncias tóxicas. O primeiro tratou da avaliação das brânquias (danos bioquímicos e morfoanatômicos) e do fígado, um dos principais órgãos de desintoxicação de tambaquis expostos ao Roundup, um herbicida comumente utilizado ao redor de tanques de piscicultura. O segundo abordou o derramamento acidental de 60 mil litros de petróleo asfáltico no Porto do São Raimundo em abril, e o consequente impacto deste acidente sobre as populações de peixes residentes nesta região.

 

Segundo Sadauskas-Henrique, águas com baixa salinidade, como as que compõem o Rio Negro, apresentam maior solubilidade dos hidrocarbonetos do petróleo, ou seja, os peixes aclimatizados nestas águas estão sujeitos a níveis de genotoxicidade e hepatotoxicidade maiores do que outras espécies que residem nos mares, por exemplo.

 

A fim de compreender os impactos dos agentes contaminantes provenientes do derramamento de petróleo nos organismos dos peixes, foram analisados animais coletados no local do derramamento após 15, 30 e 60 dias decorridos do acidente. Para comparação com um ambiente livre de contaminantes, a doutoranda escolheu o Lago do Tupé, localizado em uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS), a 24 quilômetros rio acima do Porto do São Raimundo, em Manaus, onde ocorreu o acidente. Assim, 147 exemplares de quatro espécies diferentes de peixes foram colhidos e analisados. Foram coletados sangue, vesícula biliar e fígado destes animais para verificar a presença de hidrocarbonetos na bile e alterações de biomarcadores de efeito e toxicidade. A pesquisadora afirmou que tanto na coleta de 30 quanto na de 60 dias houve aumento na concentração dos hidrocarbonetos na bile. Em 60 dias, os peixes também estavam metabolizando e absorvendo mais as substâncias do ambiente.

 

Ao final da palestra, a cientista destacou que os biomarcadores foram efetivos ao apresentar os efeitos negativos que o derramamento de óleo teve sobre os peixes daquela região.

 

 

Estímulo natatório de Matrinxã e ração com mais proteína aumentam em 30% peso do peixe

Estímulo natatório de Matrinxã e ração com mais proteína aumentam em 30% peso do peixe

Método alternativo de criação de matrinxã, desenvolvido pelo Inpa, aumenta a produtividade do peixe. Além disso, o treinamento físico tornou o animal mais resistente ao estresse, que é um dos graves entraves à piscicultura

Por Cimone Barros

A utilização de métodos alternativos de cultivo de matrinxã juvenil em água corrente intermitente (não contínuo) mostrou que o peixe que recebe estímulo natatório tem um ganho de peso de 30% a mais comparado com o matrinxã sedentário, tendo inclusive o melhor aproveitamento da ração. Esse é um dos resultados do artigo “Efeito da quantidade de proteína na dieta e treinamento físico sobre parâmetros fisiológicos e zootécnicos de matrinchã (Brycon amazonicus)”, publicado na Acta Amazônica, revista científica multidisciplinar do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/ MCTI).

Assinado pelo estudante de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Biologia de Água Doce e Pesca Interior (PPG-BADPI) do Inpa Márcio Ferreira e pelos pesquisadores Paulo Henrique Aride, Maria de Nazaré da Silva e Adalberto Val, o estudo também apontou que a aplicação simultânea do aumento da quantidade de proteína na dieta do matrinxã e o treinamento físico do peixe geram maiores acúmulos de gorduras no filé.

“Isso sugere uma avaliação do tipo de gordura acumulada, porque ainda não sabemos, por exemplo, se essa gordura é rica em ômega 3 ou não, e da aceitação dessa carne no mercado”, disse Ferreira.

Metodologia

Dois níveis diferentes de proteína na ração foram testados, uma com 36% e outra com 45%, a com maior percentual de proteína foi a que obteve os melhores resultados. Segundo Ferreira, apesar de ser mais cara, o custo compensa devido à diminuição do tempo de crescimento do peixe – no caso da pesquisa matrinxãs juvenis. Depois dessa fase, o peixe leva mais uns seis a oito meses até ir para o mercado consumidor.

O estudo identificou ainda que o matrinxã submetido ao treinamento físico ficou mais resistente ao estresse, que é um dos graves entraves para a piscicultura, além da disponibilidade de água e custo da ração. O estresse do matrinxã é entendido como um nome genérico para diversos fatores, como queda na concentração de oxigênio da água, extremos de temperaturas e substâncias tóxicas na água, que diminuem a taxa de crescimento ou até matam o peixe.

Nadar contra a correnteza

Para chegar a esses resultados, a pesquisa reproduziu em laboratório o método de cultivo em canal de igarapé, modo predominante na região norte do Amazonas, utilizando caixas d’água circular, onde foi gerada, a partir de bombas, uma correnteza de água fazendo com que os peixes fossem forçados a nadar contra ela, mas com interrupções periódicas.

Com isso, produziu-se um estresse natatório, no qual os peixes foram obrigados a vencer a corrente d’água. O modelo é diferente dos métodos tradicionais (canal de igarapés), onde os peixes são mantidos em água corrente de forma contínua, durante 24 horas. “No caso do matrinxã, o estresse natatório é um fator positivo quando aplicado da maneira correta, possibilitando o maior ganho de massa do peixe”, explicou Ferreira.

No experimento, os peixes foram obrigados a nadar durante um minuto de água corrente, com descanso de dez minutos durante 24h por dia, por um período de 30 dias. Já o grupo sedentário ficou em água parada.

O diferencial do estudo em relação ao modelo tradicional é a tentativa de fazer um método intermitente, onde o peixe não precise nadar o tempo inteiro e que ele use o estímulo natatório o mínimo possível, já que na própria natação o peixe gasta energia e acaba perdendo peso. “Então nós temos que encontrar é um equilíbrio entre o gasto calórico e o estímulo benéfico do exercício físico”, apontou Ferreira.

Um dos desafios do estudo agora é testar os resultados em escala real, já que em laboratório as condições são consideradas ideais, controladas. Ferreira lembra que nos métodos tradicionais, a água disponível entra e sai do tanque continuamente, e ela é utilizada simplesmente para renovação d’água e não para gerar a corrente de água. Os testes foram feitos no Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular (LEEM) do Inpa.

“O que propomos é que em vez dessa água entrar e sair continuamente no tanque, que ela seja represada e liberada uma ou algumas vezes durante o dia, gerando o estímulo necessário para o aumento de produtividade”, enfatizou Ferreira.

Para o pesquisador do Inpa, Alexandre Honczaryk, que trabalha com piscicultura, o estudo pode funcionar na prática, mas com matrinxã juvenil e para a produção de subsistência, porque na fase seguinte, a de engorda, é bem mais complicada. Nela, é exigido maior tempo de tanque ou de igarapé, de seis a oito meses, aumentando cada vez mais o volume de água e de ração (apesar do nível de proteína na ração chegar a cair até 28%).

“Mesmo em canal de igarapé, há uma vazão de água limitada e exatamente por isso o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) limitou o cultivo de matrinxã em igarapé a um número máximo de peixe por área e por igarapé, senão é feito um atrás do outro, e passa-se a ter problemas de poluição, de saúde”, pontuou Honczaryk.

Conforme a resolução Conselho Estadual de Meio Ambiente do Amazonas (Cemaam n 01.08/Ipaam), a criação em canais de igarapé é autorizada para microempreendimentos de aquicultura familiar, comunitária, de baixa renda, e subsistência, de caráter social e baixo impacto, desde que assegure a estabilidade de margens do igarapé, a regeneração e a manutenção da vegetação nativa.

Os empreendimentos também poderão ser licenciados em canais de igarapé com vazão mínima de 15 litros por segundo e biomassa final de 1.000 quilos em 100 metros cúbicos. Fora desses parâmetros são necessários estudos de impacto ambiental.

Saiba Mais

O estresse do peixe pode ser verificado por meio de análise hematológica (do sangue), observando alguns parâmetros que indicam se peixe está estressado ou não. Outra maneira é aplicar um teste natatório, porque além da natação ser um fator de estresse para o peixe, um teste a posteriori pode também indicar o vigor físico dele e um bom vigor físico é sinal de saúde.

Perspectivas

Segundo Márcio Ferreira, o grupo vai continuar desenvolvendo o trabalho de exercício com peixes em geral, inclusive com matrinxã. O objetivo é saber qual é o estímulo natatório necessário para conseguir maior vigor físico.

“Queremos saber qual é o mínimo necessário para conseguir esses mesmos benefícios, porque quanto menos a gente precisar desse estímulo, menos recursos (água, ração e energia elétrica a gente vai precisar”, revelou o doutorando.

No momento, Márcio estuda a adição de suplementos alimentares na ração dos peixes, entre eles o aminoácido arginina, que comprovadamente em mamíferos (cavalos, ratos e até humanos) aumenta a oxigenação dos músculos gerando um maior desempenho atlético. A questão agora é saber se isso pode funcionar em peixes.

Fique por dentro

De acordo com dados do Censo Aquícola do Brasil, divulgado pelo Ministério de Pesca e Aquicultura em setembro deste ano e usando dados de 2008, foram identificadas o País 753 unidades produtivas de matrinxã. Na região Sudeste foi encontrada a maior parcela dessas unidades produtivas (41%), seguida pela região Centro-Oeste (28%), Norte (22%), Sul (9%) e Nordeste (0,4%). Dentre os estados, São Paulo lidera o número de unidades produtivas, com 25% do total, seguido do Amazonas com 19%, Goiás com 17% e Minas Gerais com 12%.

Foto da chamada: Acervo pesquisador
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Pesquisadoras do INPA são homenageadas no XIV Congresso Brasileiro de Limnologia

O evento realizado em Bonito – MS ocorreu entre os dias 8 e 12 de setembro de 2013. Além da extensa programação que incluiu apresentações orais e de pôster, sendo que 2 alunos do laboratório sede do ADAPTA também apresentaram seus trabalhos, o evento contou com uma série de homenagens à pesquisadoras que se destacaram na sua contribuição à limnologia brasileira. Dentre as pesquisadoras homenageadas, estavam a vice coordenadora do ADAPTA, Dra. Maria Teresa F. Piedade e a Dra. Ilse Walker, pesquisadora do INPA.